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Crise de Ormuz: Fertilizantes, Agro e CRAs sob Pressão

Resumo executivo
  • Ureia a US$ 710/t(+89% YoY) após fechamento de Ormuz. Brasil importa 85% dos fertilizantes, 41% da ureia transita pelo estreito.
  • Inadimplência rural recorde(7,3% em jan/2026) com R$ 123,6 bi em crédito estressado e 1.990 RJs no agro em 2025.
  • Implicação para CRAs e Fiagros:choque de custos encontra setor já fragilizado — risco de transmissão para lastros agro é real e exige monitoramento granular.
  • COPOM 18/03pode definir primeiro corte de SELIC desde maio/2024, mas margem é estreita com IPCA em alta.

Na manhã de 28 de fevereiro de 2026, o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz parou. Em 30 dias, a ureia saltou 50% e atingiu US$ 710 por tonelada CFR Brasil — o maior preço desde o choque da Ucrânia. Com o Brent acima de US$ 120, a Agência Internacional de Energia classificou o episódio como a maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo. Mas para quem monitora CRAs lastreados no agro, o problema não é o petróleo: é o fertilizante que não chega ao campo em um setor onde a inadimplência rural já bate 7,3%.

O choque de oferta de fertilizantes, em um setor que acumula margens comprimidas e recorde de recuperações judiciais, representa um teste de estresse real para a qualidade de crédito dos CRAs e Fiagros — e exige ação imediata de gestores, securitizadoras eadministradores fiduciários.

O choque de oferta: de Ormuz ao campo brasileiro

O Estreito de Ormuz é responsável pelo trânsito de aproximadamente metade das exportações globais de enxofre, um terço da ureia mundial e 20% dos fertilizantes fosfatados. O bloqueio efetivo do tráfego marítimo desde 28 de fevereiro interrompeu essa cadeia de forma abrupta.

Os números são inequívocos. Segundo dados do Itaú BBA (Radar Agro), a ureia atingiu US$ 710 por tonelada CFR Brasil — alta de 50% em 30 dias e 89% na comparação anual. O MAP (fosfatado) saltou para US$ 850/t, avanço de 17% no último mês. Em volume, as importações brasileiras de ureia entre janeiro e fevereiro de 2026 totalizaram 790,7 mil toneladas — o menor patamar para o período desde 2018 e uma retração de 31% frente a 2025.

Dependência estrutural

O Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome. Cerca de 41% da ureia importada transita pelo Estreito de Ormuz. O Ministério da Agricultura estima um déficit potencial de 1 a 3 milhões de toneladas de fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade da safra 2026/27.

A piora na relação de troca é imediata. Para o milho, a quantidade de sacas necessárias para adquirir uma tonelada de MAP subiu de 40–50 para 50–60. Para a soja, são necessárias quase 29 sacas por tonelada de MAP — patamar que corrói margens já pressionadas. Dados do Cepea mostram que a margem bruta do milho caiu 92% entre safras, de R$ 1.010 para R$ 79 por hectare. Na soja, a retração foi de 36%.

Transmissão para o crédito agro: um setor que já estava estressado

O choque de custos não chega em terreno virgem. A inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu 7,3% em janeiro de 2026 — era 2,7% doze meses antes. Em valores absolutos, o saldo inadimplente supera R$ 41 bilhões, dentro de uma carteira total de R$ 567 bilhões. Considerando operações prorrogadas e renegociadas, a carteira “estressada” do agronegócio alcançou R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025 — cerca de 15% de todo o crédito ativo do setor.

Os pedidos de recuperação judicial no agro bateram recorde em 2025: 1.990 solicitações, alta de 56,4% sobre o ano anterior. Mato Grosso liderou com 332 pedidos, seguido por Goiás (296) e Paraná (248). Para 2026, gestoras especializadas projetam mais de 2.000 novos pedidos, impulsionados pela combinação de juros elevados, margens comprimidas e, agora, custos de insumos em disparada.

Para os CRAs, o risco se manifesta em camadas. Operações concentradas em poucos cedentes — ou em cedentes expostos a culturas de baixa margem como milho — enfrentam risco de reclassificação. Covenants financeiros atrelados a indicadores como EBITDA/dívida ou cobertura de juros podem ser testados à medida que o custo de produção sobe sem repasse proporcional nos preços de venda. A marcação a mercado de carteiras com exposição ao agro tende a refletir essa deterioração com defasagem, o que exige monitoramento granular e proativo.

Vale notar, porém, que o cenário não é uniformemente negativo. Fiagros com carteiras diversificadas e focados em high-grade — como o SNAG11, que reporta inadimplência zero desde o início — demonstram resiliência. A cotação da soja próxima de US$ 11,60 por bushel, perto de máximas de dois anos, oferece alguma proteção para produtores dessa commodity específica. O choque de custos é mais agudo para milho e culturas dependentes de adubação intensiva.

O que observar nos próximos meses

O primeiro indicador a monitorar é opreço dos fertilizantese a evolução logística no Ormuz. Qualquer reabertura parcial do trânsito ou redirecionamento efetivo de rotas (via Cabo da Boa Esperança) tende a aliviar a pressão sobre os preços, embora com defasagem de 60 a 90 dias na chegada ao produtor brasileiro.

O segundo é areunião do COPOM em 18 de março. O mercado precifica o primeiro corte de juros desde maio de 2024 — a maioria dos bancos projeta redução de 0,25 a 0,50 ponto percentual. Mas com o Focus revisando o IPCA para cima semana após semana e a Fazenda elevando suas projeções de inflação por conta do petróleo, a margem para flexibilização é estreita. Para o crédito agro, SELIC a 15% significa custo de carregamento alto e refinanciamento caro — justamente quando o produtor mais precisa de fôlego.

O terceiro vetor é orisco regulatório-fiscal.A MP 1.303, que propunha tributar rendimentos de títulos isentos, caducou em outubro de 2025, mas a pressão fiscal que a motivou permanece. Qualquer nova tentativa de tributação de CRIs e CRAs alteraria a equação de demanda por esses instrumentos — em um momento em que a qualidade dos lastros agro já está sob pressão.

Precedente recente

O choque de fertilizantes de 2022, provocado pela guerra na Ucrânia, elevou custos de adubação em até 90%. Naquela ocasião, a inadimplência rural ainda era baixa (sub-3%) e as margens do agro estavam em patamares saudáveis. Em 2026, o choque encontra um setor já fragilizado — o que amplifica o risco de transmissão para os instrumentos de crédito estruturado.

Considerações finais

Para gestoras com exposição a CRAs e Fiagros agro, três ações concretas separam gestão de risco reativa de efetiva neste ciclo:(1)simular o impacto de ureia a US$ 900/t noscovenantsde EBITDA/dívida dos cedentes — se o covenant quebra, a reclassificação vem antes da safra;(2)mapear concentração por cultura — milho com margem de R$ 79/ha não suporta choque adicional de insumos;(3)cruzar inadimplência municipal com geolocalização dos cedentes — Mato Grosso, Goiás e Paraná concentram a maioria das RJs. Quem opera com essas capacidades já hoje não vai ser surpreendido pelo próximo relatório trimestral.

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